25.03.2026 Ícone da categoria

Mulheres no topo precisa ser estratégia de negócio e não pauta sazonal

Como as lideranças femininas impactam em inovação, performance criativa e resultados financeiros

Mulheres no topo precisa ser estratégia de negócio e não pauta sazonal

Março é um mês repleto de ações e campanhas para as mulheres nas mais variadas empresas. De ideias totalmente clichês, como flores, cestas de café e kits de beleza, até iniciativas supostamente bem-intencionadas, mas honestamente preguiçosas, como pedir para que colaboradoras ministrem rodas de conversa, dando a elas ainda mais trabalho.

Iniciativas não faltam. Mas o que fica para as empresas estruturalmente? Além de ganhar presentes, as mulheres estão ganhando promoções?

Essa é uma pergunta importante.

Dados da Organização Internacional do Trabalho mostram que mulheres ocupam cerca de 30% dos cargos de liderança no mundo. No Brasil, 37% dos cargos de liderança sênior são ocupados por mulheres; porém, em posições de CEO, elas ainda são 17%.

Segundo levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, esse número ainda é desigual — especialmente quando olhamos para o recorte racial: mulheres negras seguem sub-representadas em posições de poder, apesar de serem maioria entre as mulheres no país.

Diversidade não é tendência: é vantagem competitiva

A equidade não pode se limitar à reparação histórica, embora ela seja urgente.

Promover mulheres à liderança é também uma decisão estratégica de negócio. Um estudo da McKinsey & Company aponta que empresas com maior diversidade de gênero em cargos executivos têm até 25% mais chances de apresentar desempenho financeiro acima da média.

O impacto da liderança feminina vai além do financeiro. Segundo levantamento da Harvard Business Review, as líderes também se destacam em áreas como comunicação, gestão de crises, desenvolvimento de talentos e promoção de culturas mais colaborativas e inclusivas.

Na prática, isso também se traduz em inovação, leitura de contexto e capacidade de prever conflitos.

Na indústria criativa, onde atuo, isso é ainda mais evidente. Ideias não surgem no vazio. Elas são resultado de repertórios diversos.

Times liderados por mulheres tendem a ter maior sensibilidade cultural, escuta ativa e abordagens menos óbvias, o que impacta diretamente na qualidade criativa e nos resultados entregues.

Mulheres olham para o futuro

Ao analisarmos a trajetória das CEOs, vemos o quanto as mulheres estão à frente de iniciativas que impactam positivamente o futuro das organizações e da sociedade, em termos de equidade e sustentabilidade.

Na Microsoft do Brasil, uma gigante da tecnologia, a empresa atingiu mais de 70% de mulheres em cargos de liderança sob a gestão da gerente-geral Tânia Consentino. A empresa também capacitou mais de 780 mil mulheres em tecnologia nos últimos quatro anos. Com mais de 40 anos de carreira, 15 foram como CEO de grandes empresas.

Rachel Maia, empresária brasileira, ex-CEO da Lacoste no Brasil.

Rachel Maia, a primeira mulher negra a liderar empresas globais como Lacoste e Pandora no Brasil, hoje é conselheira de gigantes como o Banco do Brasil. A empresária fundou a RM Cia 360, que oferece consultoria focada em impacto social, ambiental e sustentabilidade (ESG) para grandes empresas. Com o seu negócio, Rachel contribui com soluções para promover ambientes empresariais mais éticos, sustentáveis e diversos, gerando transformações no mercado de trabalho.

Beatriz Luz, engenheira química e especialista em Economia Circular, fundou a Exchange 4 Change Brasil em 2015. Segundo o Circularity Gap Report 2023, mais de 90% de todo o material utilizado no mundo ainda é desperdiçado ou perdido. Por isso, seu negócio incentiva empresas a repensarem cadeias produtivas para reduzir resíduos e repor recursos na natureza.

Até o setor automotivo tem passado por mudanças com a liderança de mulheres. Nos Estados Unidos, Stella Li participou diretamente da transformação da BYD em uma das maiores forças globais da eletrificação. Sino-americana, a vice-presidente executiva é reconhecida como uma das mulheres mais influentes no setor de veículos elétricos.

Na concorrente, General Motors, desde 2014, com a entrada da CEO Mary Barra, a empresa está focada em ganhar protagonismo na mobilidade elétrica.

Na China, Wang Fengying passou mais de 30 anos na GWM e agora lidera a XPeng Motors, um dos nomes mais inovadores em carros elétricos e inteligentes no país. À frente da companhia, conduz a estratégia global da marca e supervisiona desenvolvimento de produtos, vendas e expansão internacional.

Esses exemplos são evidências do impacto positivo das lideranças femininas na construção de ambientes mais inovadores e preparados para o futuro.

Ir além do discurso

Se as organizações realmente quiserem avançar, precisam ir além. Isso passa por:

Revisão de processos de promoção

Antes de qualquer mudança, é fundamental analisar o quadro da empresa e sua composição de gênero. É importante identificar onde estão as mulheres dessa empresa, o que elas fazem e há quanto tempo.

Perguntas como essas ajudam a traçar um diagnóstico.

Criar um planejamento em diversidade

Após compreender os números da empresa, é necessário estabelecer metas objetivas de diversidade, com planejamento tático de ação, auditorias e acompanhamento dos colaboradores.

Afinal de contas, não adianta estabelecer metas sem planos, prazos e fiscalização.

Letramento e combate ao machismo

O dia a dia também é fundamental.

A cultura da empresa precisa investir em letramento de gênero e ser vigilante com o machismo em todas as suas facetas, tais como: a interrupção nas reuniões, a falta de consideração pelas ideias e demandas das mulheres, o assédio moral e sexual, entre outros tipos de violências de pequena e grande escala.

Evidentemente, é imprescindível que a alta liderança esteja engajada nesses processos e sirva de exemplo.




Incentivo à licença-maternidade e paternidade

É importante o entendimento de que mulheres e homens são responsáveis pelo cuidado da família e, assim, reduzir a prática de baixa contratação de mulheres com a suposta ideia de que podem se tornar mães.

Parece uma atitude antiga, mas esse tipo de pensamento ainda ronda as empresas — e precisa ser combatido.

A partir do momento em que a maternidade se torna um empecilho para a carreira das mulheres, estamos reforçando uma sociedade onde as mulheres são responsáveis pelo cuidado não remunerado, enquanto os homens têm mais espaço, tempo e possibilidade de ascensão no mercado.

Não existe transformação sem intencionalidade

Março vai acabar daqui a pouco.

O que as empresas estão fazendo o ano todo?