Março é um mês repleto de ações e campanhas para as mulheres nas mais variadas empresas. De ideias totalmente clichês, como flores, cestas de café e kits de beleza, até iniciativas supostamente bem-intencionadas, mas honestamente preguiçosas, como pedir para que colaboradoras ministrem rodas de conversa, dando a elas ainda mais trabalho.
Iniciativas não faltam. Mas o que fica para as empresas estruturalmente? Além de ganhar presentes, as mulheres estão ganhando promoções?
Essa é uma pergunta importante.
Dados da Organização Internacional do Trabalho mostram que mulheres ocupam cerca de 30% dos cargos de liderança no mundo. No Brasil, 37% dos cargos de liderança sênior são ocupados por mulheres; porém, em posições de CEO, elas ainda são 17%.
Segundo levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, esse número ainda é desigual — especialmente quando olhamos para o recorte racial: mulheres negras seguem sub-representadas em posições de poder, apesar de serem maioria entre as mulheres no país.
Diversidade não é tendência: é vantagem competitiva
A equidade não pode se limitar à reparação histórica, embora ela seja urgente.
Promover mulheres à liderança é também uma decisão estratégica de negócio. Um estudo da McKinsey & Company aponta que empresas com maior diversidade de gênero em cargos executivos têm até 25% mais chances de apresentar desempenho financeiro acima da média.
O impacto da liderança feminina vai além do financeiro. Segundo levantamento da Harvard Business Review, as líderes também se destacam em áreas como comunicação, gestão de crises, desenvolvimento de talentos e promoção de culturas mais colaborativas e inclusivas.
Na prática, isso também se traduz em inovação, leitura de contexto e capacidade de prever conflitos.
Na indústria criativa, onde atuo, isso é ainda mais evidente. Ideias não surgem no vazio. Elas são resultado de repertórios diversos.
Times liderados por mulheres tendem a ter maior sensibilidade cultural, escuta ativa e abordagens menos óbvias, o que impacta diretamente na qualidade criativa e nos resultados entregues.
Mulheres olham para o futuro
Ao analisarmos a trajetória das CEOs, vemos o quanto as mulheres estão à frente de iniciativas que impactam positivamente o futuro das organizações e da sociedade, em termos de equidade e sustentabilidade.
Na Microsoft do Brasil, uma gigante da tecnologia, a empresa atingiu mais de 70% de mulheres em cargos de liderança sob a gestão da gerente-geral Tânia Consentino. A empresa também capacitou mais de 780 mil mulheres em tecnologia nos últimos quatro anos. Com mais de 40 anos de carreira, 15 foram como CEO de grandes empresas.

Rachel Maia, a primeira mulher negra a liderar empresas globais como Lacoste e Pandora no Brasil, hoje é conselheira de gigantes como o Banco do Brasil. A empresária fundou a RM Cia 360, que oferece consultoria focada em impacto social, ambiental e sustentabilidade (ESG) para grandes empresas. Com o seu negócio, Rachel contribui com soluções para promover ambientes empresariais mais éticos, sustentáveis e diversos, gerando transformações no mercado de trabalho.
Beatriz Luz, engenheira química e especialista em Economia Circular, fundou a Exchange 4 Change Brasil em 2015. Segundo o Circularity Gap Report 2023, mais de 90% de todo o material utilizado no mundo ainda é desperdiçado ou perdido. Por isso, seu negócio incentiva empresas a repensarem cadeias produtivas para reduzir resíduos e repor recursos na natureza.
Até o setor automotivo tem passado por mudanças com a liderança de mulheres. Nos Estados Unidos, Stella Li participou diretamente da transformação da BYD em uma das maiores forças globais da eletrificação. Sino-americana, a vice-presidente executiva é reconhecida como uma das mulheres mais influentes no setor de veículos elétricos.
Na concorrente, General Motors, desde 2014, com a entrada da CEO Mary Barra, a empresa está focada em ganhar protagonismo na mobilidade elétrica.
Na China, Wang Fengying passou mais de 30 anos na GWM e agora lidera a XPeng Motors, um dos nomes mais inovadores em carros elétricos e inteligentes no país. À frente da companhia, conduz a estratégia global da marca e supervisiona desenvolvimento de produtos, vendas e expansão internacional.
Esses exemplos são evidências do impacto positivo das lideranças femininas na construção de ambientes mais inovadores e preparados para o futuro.
Ir além do discurso
Se as organizações realmente quiserem avançar, precisam ir além. Isso passa por:
Revisão de processos de promoção
Antes de qualquer mudança, é fundamental analisar o quadro da empresa e sua composição de gênero. É importante identificar onde estão as mulheres dessa empresa, o que elas fazem e há quanto tempo.
Perguntas como essas ajudam a traçar um diagnóstico.
Criar um planejamento em diversidade
Após compreender os números da empresa, é necessário estabelecer metas objetivas de diversidade, com planejamento tático de ação, auditorias e acompanhamento dos colaboradores.
Afinal de contas, não adianta estabelecer metas sem planos, prazos e fiscalização.
Letramento e combate ao machismo
O dia a dia também é fundamental.
A cultura da empresa precisa investir em letramento de gênero e ser vigilante com o machismo em todas as suas facetas, tais como: a interrupção nas reuniões, a falta de consideração pelas ideias e demandas das mulheres, o assédio moral e sexual, entre outros tipos de violências de pequena e grande escala.
Evidentemente, é imprescindível que a alta liderança esteja engajada nesses processos e sirva de exemplo.
Incentivo à licença-maternidade e paternidade
É importante o entendimento de que mulheres e homens são responsáveis pelo cuidado da família e, assim, reduzir a prática de baixa contratação de mulheres com a suposta ideia de que podem se tornar mães.
Parece uma atitude antiga, mas esse tipo de pensamento ainda ronda as empresas — e precisa ser combatido.
A partir do momento em que a maternidade se torna um empecilho para a carreira das mulheres, estamos reforçando uma sociedade onde as mulheres são responsáveis pelo cuidado não remunerado, enquanto os homens têm mais espaço, tempo e possibilidade de ascensão no mercado.
Não existe transformação sem intencionalidade
Março vai acabar daqui a pouco.
O que as empresas estão fazendo o ano todo?