Proibição da propaganda de bets no espaço público

Quem constrói a paisagem urbana e quais narrativas ocupam as ruas?

Proibição da propaganda de bets no espaço público

Durante muito tempo, viajar pelas estradas brasileiras era também atravessar uma galeria de marcas. Outdoors anunciavam de tudo: refrigerantes, redes de fast food, cosméticos, filmes, shows, roupas e até campanhas de utilidade pública. Antes dos smartphones, essa era uma das grandes vitrines da publicidade. Ainda hoje, mesmo em um ambiente cada vez mais digital, a mídia Out of Home (OOH) continua sendo uma das estratégias mais relevantes para conectar marcas e pessoas.

Mas existe uma diferença importante entre comunicar e ocupar. Um outdoor não é apenas um suporte publicitário: ele modifica a paisagem, interfere na experiência urbana e disputa a atenção de quem circula pela cidade. É por isso que toda discussão sobre publicidade em espaços públicos também é uma discussão sobre cidade, cultura e democracia.

Nos últimos dias, essa conversa ganhou um novo capítulo. A Prefeitura do Rio de Janeiro proibiu a veiculação de publicidade de plataformas de apostas em mídias exteriores, como outdoors, mobiliário urbano, relógios digitais, quiosques, painéis em edifícios e até anúncios em ônibus municipais e VLT. Belo Horizonte seguiu caminho semelhante, restringindo esse tipo de publicidade em equipamentos públicos e em um raio de cem metros de escolas, museus e espaços voltados a crianças e adolescentes.

À primeira vista, a medida parece discutir apenas um setor econômico. Mas, na prática, ela levanta uma pergunta muito mais ampla: quais marcas podem ocupar o espaço público? Essa é uma questão que ultrapassa os limites da legislação e entra no campo da ética.

As bets são hoje uma atividade regulamentada no Brasil. Mas legalidade não encerra um debate social. Dados do Ministério da Saúde mostram que a procura por atendimento relacionado ao vício em apostas no Sistema Único de Saúde cresceu cerca de 140% nos últimos cinco anos.

Ao mesmo tempo, um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), em parceria com a Umane e a Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental (FPSM), estima que os custos diretos e indiretos associados aos transtornos provocados pelas apostas chegam a R$38 bilhões, valor superior em mais de quatro vezes aos cerca de R$9 bilhões arrecadados pelo governo federal com a tributação dessas plataformas em 2025.

Quando colocamos esses números diante de um painel de dezenas de metros quadrados em uma avenida movimentada, a pergunta deixa de ser apenas “a publicidade pode?” e passa a ser “ela deveria?”

Propaganda é responsabilidade

Como alguém que trabalha com marcas, acredito profundamente no papel da comunicação. Campanhas têm capacidade de gerar repertório cultural, fortalecer economias criativas, financiar projetos artísticos e aproximar pessoas de ideias que transformam a sociedade. Mas justamente porque acredito na potência das marcas, também acredito que elas carregam responsabilidades proporcionais ao tamanho da sua presença.

O espaço público é um recurso coletivo. A paisagem urbana pertence a todos nós. Cada painel, fachada ou intervenção visual comunica não apenas um produto, mas também quais valores uma cidade escolhe destacar.

Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja se devemos ter publicidade nas ruas. A pergunta é: que tipo de publicidade queremos ver?

Os impactos na arte urbana

Essa discussão também alcança outro campo que me interessa profundamente: a arte urbana. O graffiti nasceu como linguagem de contestação, ocupando os muros para dar visibilidade a vozes que raramente encontravam espaço nas galerias ou nos meios tradicionais de comunicação. Com o tempo, as marcas perceberam sua potência estética e simbólica, transformando muitos artistas em parceiros de campanhas publicitárias.

Não há problema nisso. Muito pelo contrário. O investimento privado pode ampliar oportunidades para artistas urbanos. O cuidado está em evitar que a sobrevivência dessa produção artística dependa exclusivamente de setores econômicos cujos impactos sociais geram controvérsias.

Precisamos ampliar o número de agentes que financiam cultura. Marcas ligadas à música, ao audiovisual, à moda, ao design e à economia criativa têm enorme potencial para investir em intervenções urbanas que dialoguem com seus valores.

Da mesma forma, políticas públicas, editais e mecanismos de incentivo precisam continuar garantindo que o graffiti permaneça sendo também um espaço de experimentação, crítica e liberdade criativa, e não apenas mais um formato de mídia patrocinada.

Nesse sentido, a decisão do Rio de Janeiro talvez não seja um caso isolado. Em diferentes partes do mundo cresce a discussão sobre os limites da publicidade em espaços públicos. Cidades já restringiram anúncios de cigarro, bebidas alcoólicas, combustíveis fósseis, alimentos ultraprocessados e outros produtos considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente.

A pergunta que passa a orientar essas políticas não é apenas econômica, mas cultural: qual narrativa merece ocupar a cidade?

Uma cidade vibrante é aquela em que a comunicação convive com a arte, onde marcas dialogam com responsabilidade e onde o espaço público continua sendo um lugar de encontro, identidade e pertencimento, e não apenas de consumo.



No fim das contas, acredito que a questão não é se as marcas devem ocupar as ruas. É quais histórias queremos que elas contem quando ocuparem esse espaço.

É esse tipo de pergunta que atravessa boa parte do que a gente faz na Casablack. Quando ajuda uma marca a pensar presença — num outdoor, numa campanha, numa parceria cultural — a primeira discussão nunca é sobre formato ou verba disponível. É sobre que história aquela marca tem repertório pra contar, e em que espaço ela realmente pertence. Ocupar cultura com responsabilidade é, cada vez mais, o que separa marca relevante de marca só visível.